

Na Alameda dos Mestres da Fenearte, a ausência de um estande não passa despercebida. Este ano, são 63 espaços — e não 64. O mestre Tiago Amorim, presente desde as primeiras edições da feira, enfrenta um delicado momento de saúde e não pôde comparecer. Aos 82 anos, ele não está fisicamente, mas sua presença simbólica ressoa em memória e reverência. Em sua homenagem, o Espaço Janete Costa e a organização da Fenearte prepararam um tributo especial.
"Thiago Amorim é um precursores da arte-artesanato. Ele sempre esteve na feira desde as primeiras edições mas este ano, em função da idade, não está conosco. Então a organização da Fenearte e nós dos Espaço Janete Costa decidimos prestar uma homenagem. Montamos um espaço com peças dele para comercialização e muitas já foram vendidas. São esculturas, principalmente, da fauna que ele criou, além do seu acervo de mulheres. Trouxemos pelo menos de 15 peças", diz a curadora Bete Paes.
Neste ano em que a Fenearte celebra 25 anos, uma das esculturas do Mestre Tiago foi escolhida para ilustrar o pôster comemorativo da edição. Um gesto simbólico, que afirma o lugar do artista não apenas como participante da feira, mas como parte fundadora do seu espírito.
Nesta quarta-feira (16), às 19h, o mestre artesão será tema das Conversas Instigantes, no Espaço Janete Costa, com a presença do curador Raul Córdula e do jornalista, cantor e compositor Marco Polo. Com mediação do jornalista e coordenador da Fenearte, Romero Rafael, vão discutir o tema "Tiago Amorim, um artista-artesão". O lançamento do pôster acontece depois da conversa.
O ateliê de Tiago fica perto do céu, no Alto da Mina, em Olinda. Suas peças decoram a escadaria que leva à casa. Lá me cima, fornos, fôrmas, peças criadas por ele mesmo... Uma verdadeira parafernália criativa e o silêncio.
Para Tiago Amorim a arte sempre foi o caminho: viver é um gesto de criação permanente. “Vida é arte. Arte é ação, expressão e sabedoria”, resume o artista, que transformou sua existência num percurso estético, espiritual e político. Suas ideias, descritas aqui, estão em documentários, escritos e conversas com a imprensa.
"Olindense" nascido em Limoeiro, veio morar na Cidade Patrimônio Nascido aos dois anos de idade. Ainda menino, já recortava e colava papéis coloridos, intuindo um fazer artístico que só mais tarde ganharia nome e forma. Foi no Colégio de São Bento que modelou, com massa epóxi, sua primeira peça — uma figura típica pernambucana. Selecionado para representar o Brasil numa exposição na Alemanha, teve ali o primeiro vislumbre do potencial transformador de sua arte. Sonhou, então, em dar permanência àquele gesto criativo usando cerâmica.
A ida ao Mosteiro de São Bento, impulsionada pelo desejo de ser sacerdote, acabaria revelando outro chamado: a arte como forma de devoção. Foi ali que Sebastião Wilson Ferreira de Amorim tornou-se Tiago Amorim. Um novo nome para uma nova identidade — inspirada no apóstolo Tiago Maior e na vida monástica. “O monge vive só, mas transmite seu conhecimento nos encontros ocasionais. Essa solidão é fértil. É onde nasce a minha criação.”
Tiago percorreu a história da arte com olhos curiosos e generosos. Apaixonou-se pelos primitivos orientais, mergulhou no renascimento, dialogou com os modernistas. Mas foi no Movimento Regionalista de 1922 que encontrou a ponte entre o erudito e o popular. “A gente tinha do lado de cá a cerâmica de Caruaru, Passira, Goiana. Trabalhar com os artesãos, trocar saberes, foi essencial.”
Do barro, nasceram formas que se repetem como arquétipos: pássaros, bois, cavalos, caboclos, mulheres. O caboclo, por exemplo, é guerreiro e protetor — guardião das casas. Já os pássaros, muitos deles inspirados nos atobás de Noronha e dos Abrolhos, povoam jardins e mesas, tornam-se luminárias, vasos, esculturas de voo contido. “Eu vou do Gênesis ao Apocalipse. E para essa travessia, preciso da flora e da fauna. Os pássaros me acompanham.”
Cada peça, segundo ele, tem uma assinatura invisível: “quem conhece, sabe quando é minha”. Mesmo assim, o artista se permite reinventar. Cria em silêncio — um silêncio que ele define como paz interior. “É o lugar onde encontramos a parte mais forte da gente: o espírito, a psique.”
Seu fazer cotidiano sempre foi múltiplo. Entre a leitura, a escrita, o torno, o forno e a tinta, Tiago ainda cuida das vendas e da parte financeira. Faz tudo, mas sem abrir mão da liberdade. “O artista não aceita imposição. Ele acolhe a informação, e se serve. Se não, descarta.”
Com mais de 80 anos, diz que o tempo lhe ensinou a urgência do presente. “O futuro é agora. Quando se é jovem, a gente pensa em décadas. Mas com mais de 80, pensa em mais 20... ou em mais dois dias. Cada dia é um presente.”
Tiago Amorim não modela apenas o barro. Ele modela o tempo, a memória, a espiritualidade. Sua arte é permanência e transformação. É ato, é afeto. É, como ele diz, “agir com expressão”. "Se tem expressão, tem valor".
25ª Fenearte — Feira Nacional de Negócios do Artesanato