

A notificação de mensagem tocou em um momento delicado para seu Antônio (nome fictício), aposentado de 73 anos e morador do Recife. Naquela "oportunidade" que chegou pelo WhatsApp, ele viu a chance de quitar dívidas e aliviar as dores de cabeça financeiras O texto afirmava que ele havia sido premiado pelo banco e bastava confirmar alguns dados pessoais.
Pelo enredo, o leitor já imagina o desfecho: era um golpe. Antônio forneceu nome completo, data de nascimento e informações bancárias. Só percebeu o erro quando o filho mais velho chegou em casa, horas depois, e ele comentou que "receberia uma boa quantia em dinheiro".
"Meu filho abriu o aplicativo do banco no celular e, no extrato, viu que todo o meu dinheiro da aposentadoria não estava mais lá. As dívidas só aumentaram", lamentou.
Casos como o de seu Antônio se multiplicam em todo o País. Dos mais simples aos mais sofisticados, os golpes digitais são aplicados a todo instante. E é cada vez mais difícil não se tornar vítima da criminalidade.
Em 2023, o País somou 222.765 casos de estelionato pela internet. Já em 2024, as queixas saltaram para 281.206, o equivalente a pelo menos 32 vítimas a cada hora. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Para a polícia, o número ainda é subnotificado. Muitas vítimas não registram queixa por vergonha ou por acreditar que o crime não será solucionado.
Estudo realizado pela Silverguard, empresa de inteligência contra golpes financeiros, indicou que pessoas com 60 anos ou mais são as principais vítimas. Em média, cinco vezes mais que os jovens (faixa etária entre 18 e 29 anos).
"Há uma indústria criminosa altamente estruturada, que movimenta bilhões, aluga contas PJ [pessoa jurídica], compra anúncios em redes sociais e funciona como uma empresa paralela ao mercado formal. Estamos diante de um crime organizado digital que cresce em escala e sofisticação", analisou Marcia Netto, CEO da Silverguard e coordenadora da pesquisa.
Para Livia Silva, gerente de Prevenção a Fraudes do Banco Mercantil, o fator psicológico é decisivo no sucesso desses golpes.
"Sempre orientamos nossos clientes a desconfiar de contatos não solicitados, verificar se estão realmente falando com o banco pelos canais oficiais e nunca compartilhar senhas, códigos ou dados pessoais", disse.
Ao mesmo tempo em que os golpes virtuais cresceram no País, houve um aquecimento do mercado de seguros e assistências específicas contra essas fraudes, garantindo mais proteção a potenciais vítimas, sobretudo para o público 50+.
"Esses produtos costumam cobrir prejuízos causados por transferências indevidas, compras online fraudulentas ou uso indevido de dados pessoais, oferecendo mais tranquilidade e segurança", analisou.
O mercado de seguros contra crimes cibernéticos teve um salto nos últimos anos, segundo relatório da Guy Carpenter, corretora de resseguros global. Em 2019, as apólices que cobrem esse tipo de ocorrência somaram R$ 21,4 milhões. Em 2024, chegaram a R$ 237,5 milhões. E, entre janeiro e março deste ano, R$ 66,3 milhões.
Os números comprovam a preocupação com o avanço dos ataques a sistemas e roubo de dados, mas também a confiança no setor de seguros, como forma de mitigar perdas e garantir o gerenciamento de crises.
A orientação fundamental é buscar seguradoras reconhecidas e fiscalizadas pelos órgãos reguladores do mercado.
Quase 30% dos golpes analisados pela Silverguard tiveram o aplicativo WhatsApp como origem. O Instagram aparece em 2º lugar, com 21,4%. E o uso de inteligência artificial é uma ferramenta cada vez mais usada para induzir a vítima ao erro.
A pesquisa nacional também revelou que os brasileiros vítimas de crimes virtuais perderam, em média, R$ 2.540 no ano de 2025, um crescimento de 21% em relação a 2024.
O cálculo teve como base dados do Banco Central, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e da análise de 12.197 mil denúncias de vítimas na Central SOS Golpe, plataforma gratuita que auxilia as vítimas a tentar recuperar o dinheiro perdido.
Os prejuízos médios variam conforme o estado. Em Alagoas, as perdas chegaram a R$ 3.370, o valor mais alto do país. Em Pernambuco, a média foi de R$ 1.310.
Os bandidos também estão mais profissionalizados: se antes o destino do dinheiro eram majoritariamente contas de pessoas físicas, agora a maior parte vai para contas jurídicas, dificultando o trabalho da polícia para identificá-los e solicitar à Justiça o bloqueio dos valores.
Golpes para extrair dinheiro das vítimas, por meio de transferências, também são comuns. Entre julho de 2024 e junho de 2025, aproximadamente 24 milhões de pessoas foram vítimas de golpes financeiros envolvendo PIX ou boletos. Os idosos são os mais atingidos por essas fraudes.
"O Pix é uma ferramenta segura e prática, mas, como qualquer meio de pagamento, também pode ser explorado por golpistas. A principal dica é verificar sempre o nome e o CPF do destinatário antes de confirmar a transação, e evitar fazer transferências a partir de links ou QR Codes recebidos por mensagens", enfatizou Livia Silva.
Por causa dos golpes digitais, houve aumento no número de clientes de bancos à procura de seguros como garantia de proteção para operações via Pix, Ted, pagamentos de boletos e até recargas para celular.
Só no primeiro semestre de 2024, a contratação desse tipo de serviço cresceu 32% pelo Bradesco, por exemplo.
Nas últimas semanas, a Polícia Civil de Pernambuco divulgou alertas para dois novos golpes que estão sendo aplicados contra usuários do WhatsApp pelo País.
De acordo com a corporação, arquivos .ZIP (formato que contém dados compactados) estão sendo enviados para os
A polícia reforçou aos usuários que evitem abrir arquivos que não foram solicitados. Além disso, é preciso manter o antivírus atualizado no computador e celulares.
O outro golpe é o da falsa transportadora. Criminosos entram em contato com as possíveis vítimas pelo WhatsApp se passando por representantes de transportadoras de entrega de mercadorias e cobrando falsas taxas, alegando a necessidade de "regularizar" o envio dos produtos para os endereços fornecidos no ato da compra.
"Essas mensagens, muitas vezes, utilizam dados pessoais das vítimas e até perfis verificados, o que dá a aparência de legitimidade à fraude", explicou a polícia.
O delegado Ícaro Schneider pontuou que os idosos são as principais vítimas dos golpes virtuais por causa da dificuldade de acompanhar a evolução tecnológica e pela confiança nas mensagens e contatos recebidos.
"Em geral, os idosos são vítimas de golpes bancários, falsos empréstimos e linhas de crédito fraudulentas. Há também casos de premiações envolvendo dinheiro, porque eles acham que vão ter vantagens. Cerca de 55% dos crimes contra idosos no Estado são de estelionato/fraudes virtuais", disse.
O delegado citou dicas básicas para evitar os golpes. "Não clicar em link, não atender número desconhecido, principalmente de outro estado e desconfiar sempre quando houver pedido de dinheiro."
A gerente de Prevenção a Fraude do Banco Mercantil complementou: "É importante lembrar que o banco nunca solicita transferências, senhas ou confirmações de dados por telefone, WhatsApp ou e-mail. Se algo parecer estranho, o ideal é parar, conferir as informações e entrar em contato com os canais oficiais de atendimento", disse Livia Silva.
"Se houver qualquer dúvida, recomendo conversar com familiares ou pessoas de confiança antes de concluir uma operação. Essa troca ajuda muito a evitar golpes", concluiu.