

A letalidade policial em Pernambuco tem cor e faixa etária. Os mortos, em sua maioria, são negros e jovens. É o que revela a sexta edição do relatório "Pele Alvo: crônicas de dor e luta", divulgado nesta quinta-feira (6) pela Rede de Observatórios da Segurança.
Ao todo, 68 mortes decorrentes de ações policiais foram registradas no Estado em 2024. Desse total, 63 vítimas eram negras (pretos e pardos, conforme classificação do IBGE) e cinco eram brancas. Além disso, 48,5%, ou seja, quase metade tinha entre 18 e 29 anos. Outras dez tinham entre 13 e 17 anos.
Na avaliação da cientista social Edna Jatobá, coordenadora do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), entidade parceira da Rede de Observatórios da Segurança, o resultado do relatório indica que a polícia em Pernambuco tem um padrão que considera como suspeito e que é alvo de ações/abordagens no dia a dia.
"Aqui [no Estado], o que mais mata não são as grandes operações, mas as abordagens cotidianas, feitas sem critério, sem controle e sem respeito à vida. Quando 92% das vítimas são pessoas negras e mais de 60% têm até 29 anos, não se trata de acaso, mas de um padrão que revela quem o Estado enxerga como suspeito. É uma rotina de violência que naturaliza a morte da juventude negra. Segurança pública não é isso. Segurança é o direito de voltar para casa vivo, e é isso que tem sido negado", disse.
O levantamento indicou que o Recife liderou em número de óbitos em intervenções policiais. Foram nove casos no ano passado. Jaboatão dos Guararapes e Olinda aparecem em seguida, com seis registros cada um. Do total de mortes, havia apenas uma pessoa do sexo feminino.
Não foi informada a ocupação profissional de 55 vítimas. Na lista, quatro foram identificados como agricultores e quatro como estudantes. Havia ainda um
, um autônomo, um auxiliar de serviços gerais, um zelador e um servente de obras.
Das 68 pessoas mortas, 60 foram atingidas em ações da Polícia Militar. Outros sete em operações da Polícia Civil. Um veio a óbito em ação conjunta das forças de segurança do Estado.
Em nota, a Secretaria de Defesa Social (SDS) destacou que, de acordo com os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, Pernambuco é o segundo estado com o menor índice de morte por intervenção policial.
"A proporção registrada em Pernambuco é de 2%, muito abaixo da média nacional que é de 14,1%. Além disso, a redução deste tipo de ocorrência de 2023 para 2024 foi de 39,2%, o segundo estado do Brasil que mais reduziu esse tipo de ocorrência de um ano para outro", disse.
A pasta estadual afirmou ainda que as forças de segurança trabalham "na busca da qualificação técnica e excelência dos procedimentos, operações com uso de inteligência policial para redução das chances de confronto armado e a adoção de práticas voltadas aos direitos humanos e à proteção de todas as vidas, desde a formação do servidor até os cursos de capacitação continuada ao longo da carreira".
Por fim, ressaltou que cada ocorrência é investigada com rigor, seja no âmbito criminal ou administrativo, de modo que haja a devida responsabilização em caso de cometimento de crimes ou infração disciplinar.
Nove estados (AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ e SP) foram avaliados pela Rede de Observatórios da Segurança. O relatório constatou que negros tem 4,2 vezes mais chances de serem mortos pela polícia do que brancos.
No conjunto dos estados monitorados, foram registradas 4.068 mortes decorrentes de intervenção policial. A população negra representou 86,2% do total. Os jovens entre 18 e 29 anos constituíram 57,1% dos casos, totalizando 2.324 vítimas.
"As desigualdades raciais atravessam a realidade brasileira e repousam em um lugar profundo, reverberando para todas as áreas da vida social. No campo da segurança pública, o racismo e a política de segurança se consolidaram como um par de atração magnética. O Estado mata com base em critérios raciais. Não se trata de desvio, mas de um padrão", analisou Jonas Pacheco, coordenador de pesquisa.
No relatório, a Rede aponta uma série de recomendações aos estados, como o uso obrigatório de câmeras de segurança nas abordagens e a criação de planos estaduais e municipais com metas para a redução da letalidade.